Tenho as mãos sujas de sangue. Explico. Há 50 anos, quando eu era um jovem neurocirurgião, não tínhamos luvas descartáveis nos prontos-socorros. Elas eram reutilizadas. Frequentemente, em situações de grandes desastres, faltavam luvas. E, para piorar, as salas cirúrgicas também lotavam. Então, operávamos os casos de extrema urgência com as mãos lavadas em álcool, no próprio pronto-socorro. Eram cenários de guerra. Fiz muitas traqueotomias e até craniotomias com as mãos desnudas.
Tenho sangue nas mãos. Sangue dos que não consegui salvar e dos que salvei. As memórias são influenciadas pelas emoções, então, depois de quase meio século, me lembro da maioria daqueles rostos em sofrimento. O sangue nas minhas mãos permanecerá. Não precisarei esconder, nem disfarçar. É o sangue da luta de um jovem neurocirurgião contra a morte. Não suja minha pele; dignifica, honra.
Mas existe uma classe de brasileiros que precisa esconder o sangue que tem nas mãos. Sangue de pessoas que morrem todos os dias nas filas de atendimento, nas UPAs, na espera por cirurgias. Pessoas que teriam outra sorte se o dinheiro destinado a elas não tivesse sido desviado para os bolsos de uma enorme quantidade de agentes públicos e privados, sobejamente conhecidos, já identificados em grande número, mas vivendo e agindo confortavelmente sob as bênçãos dos poderes da República que simplesmente apodreceram.
A tão sonhada e utópica independência dos poderes degenerou e deu lugar à cumplicidade, devidamente aglutinada e mantida unida pela corrupção e pelas vantagens mútuas. A doutora Lúcia Glioche, ao proferir a sentença dos assassinos de Mariele, disse textualmente: “…fica aqui para os acusados: a justiça, por vezes, é lenta, é cega, é burra, é injusta, é errada, é torta, mas ela chega”.
A doutora foi corajosa, mostrou com clareza como é a justiça e acertou ao dizer que ela chega. Mas não era hora nem lugar para ir adiante. Porém nós podemos dar sequência. A justiça tarda e chega para os lambaris e manjubas. Jamais para os dourados enormes, com seus dentes afiados e para os tubarões ágeis e que nadam em aguas profundas devidamente protegidos. Se os mandantes do assassinato de Mariele forem identificados, eu duvido que serão punidos exemplarmente.
O sangue que eles têm nas mãos sujas é semelhante ao sangue dos agentes corruptos que desviam recursos públicos para si. São todos assassinos, cada qual com a sua arma. A triste diferença é que os assassinos de colarinho branco, com fortunas escondidas, estão devidamente protegidos pelo Estado apodrecido que deveria combatê-los. Usam luvas brancas de tecido fino e caro. Não mostram o sangue dos seus concidadãos. Eu não preciso esconder o sangue das minhas mãos. Só uso luvas para operar, hoje elas quase não faltam mais.
The blood in our hands
My hands are stained with blood. Let me explain. Fifty years ago, when I was a young neurosurgeon, we didn’t have disposable gloves in the emergency rooms. They were reused. Often, in major disaster situations, there was a shortage of gloves. And, to make matters worse, the operating rooms were also overflowing. So, we operated on extremely urgent cases with our hands washed in alcohol, right there in the ER. They were war zones. I performed many tracheotomies and even craniotomies with my bare hands.
I have blood on my hands. The blood of those I couldn’t save and those I did. Memories are influenced by emotions, so after almost half a century, I remember most of those faces in pain. The blood on my hands will remain. I won’t need to hide it, disguise it. It’s the blood of a young neurosurgeon’s fight against death. It doesn’t stain my skin; it dignifies, it honors.
But there is a class of Brazilians who need to hide the blood they have on their hands. The blood of people who die every day in waiting lines, in emergency care units, waiting for surgeries. People who would have had a different fate if the money intended for them hadn’t been diverted into the pockets of a huge number of public and private agents, well known, already identified in large numbers, but living and acting comfortably under the blessings of the powers of the Republic that have simply rotted.
The much-dreamed-of and utopian independence has degenerated and given way to complicity, duly agglomerated and held together by corruption and mutual advantages. Judge Lúcia Glioche, when sentencing Mariele’s killers, said verbatim: “…it remains here for the accused: justice, sometimes, is slow, it is blind, it is stupid, it is unfair, it is wrong, it is crooked, but it arrives.”
The judge was courageous, she clearly showed what justice is like and she was right to say that it arrives. But it was not the time or place to go further, but we can continue. Justice is slow and arrives for the small fish. Never for the big dorados and sharks. If the masterminds of Mariele’s murder are identified, I doubt they will be punished in an exemplary way.
The blood they have on their dirty hands is similar to the blood of corrupt agents who divert public resources for themselves. They are all murderers, each with their own weapon. The sad difference is that the white-collar killers with hidden fortunes are duly protected by the rotten state that should be fighting them.
I don’t need to hide the blood on my hands. I only use gloves to operate; today, they are almost never missing.
Deixe uma resposta