Quem tem medo de Robert F. Kennedy Jr.? Eu não / Who’s Afraid of Robert F. Kennedy Jr.? Not Me.

Aqui no Brasil, onde a política americana muitas vezes parece um reality show de outro mundo, a ideia de que Robert F. Kennedy Jr. poderia causar pânico nos EUA pelo seu ceticismo em relação às vacinas me faz rir. Lá, a liberdade de expressão é levada a sério, é um direito celebrado, onde a polêmica é natural e saudável.

Nos EUA, as ideias de RFK Jr. podem ser controversas, mas ele tem espaço para expressá-las. É um país onde o confronto de ideias é parte da cultura, onde cada cidadão pode colocar sua opinião em jogo, sabendo que ninguém vai silenciá-lo por decreto. É como um organismo vivo, auto-organizado, onde a sociedade se adapta e se cura, mesmo quando se tenta injetar o veneno da desinformação.

Agora, veja o Brasil. Aqui, a palavra censura não é apenas uma memória distante, mas uma sombra que ainda nos segue. Onde está a nossa liberdade de expressão quando artistas são silenciados, quando livros são banidos, quando a internet é mais vigiada que o nosso patrimônio nacional? Bandidos se comunicam livremente, inclusive nas penitenciarias, onde, seu poder é comprado a peso de ouro. Total livre expressão do pensamento. Cadê a lei? Aqui, se o governo decide que uma ideia não se alinha com a sua narrativa, ela pode ser apagada, sem espaço para debate, sem chance de ser confrontada no campo das ideias. Como nosso presidente aconselhou publicamente Maduro na sua visita oficial, o importante é construir narrativas favoráveis. Dane-se o resto.

RFK Jr. nos EUA pode ser visto como uma ameaça pelos seus pontos de vista, mas ele é uma ameaça que tem direito a existir, a ser debatida, a ser refutada. No Brasil, a democracia muitas vezes parece mais uma peça de teatro onde o roteiro é controlado por quem detém o poder, e se suas falas não combinam com o script, você pode ser cortado do elenco. O ativismo jurídico está incontrolável, e as ações do STF beiram campos minados, onde todo tipo de suspeitas passam por nossas cabeças. Se as bocas se amordaçam, as mentes ainda seguem livres.

Então, quando vejo o alvoroço sobre a possível nomeação de RFK Jr. como Secretário de Saúde nos EUA, eu não sinto medo. Sinto uma tristeza pelo contraste entre lá e cá. Nos EUA, a coragem de debater, de desafiar o status quo, é algo que me inspira. Aqui, muitas vezes, a liberdade de expressão parece ser mais uma concessão do Estado do que um direito inalienável dos cidadãos. Pra que  constituição se vale a interpretação casuística. Qualquer fala ou atitude, pode magoar o encarregado de plantão.  É uma ironia trágica, mas também nos lembra da importância de continuar lutando por essa liberdade.

E quando falamos nas leis americanas sobre vacinas, a realidade é que elas incentivam a vacinação, mas não impõem a obrigatoriedade para todos. Quem quer pode tomar. Há um sistema robusto de recomendações, com algumas vacinas sendo requeridas para crianças matriculadas nas escolas, mas com exceções possibilitadas por razões médicas, religiosas ou filosóficas em muitos estados. Adultos, por sua vez, têm a liberdade de escolher se vacinar ou não, refletindo essa mesma cultura de liberdade pessoal. Aqui, num país pobre de dinheiro e de cultura, as vacinas sem dúvidas mudaram o destino de milhões de crianças. Estudei medicina quando não existiam muitas vacinas. Sei da importância delas num país com  pessoas vivendo sem saneamento e em condições de vulnerabilidade. Nosso programa de vacinação é fundamental. Não podemos nos comparar com os EUA nesse aspecto. Nem dizer que somos melhores. Eles conquistaram o direito a liberdade.

Mas, vale ressaltar: se por alguma decisão do governo americano, incluindo a de figuras como RFK Jr., ocorresse um surto de sarampo ou outra doença com consequências sérias, haveria uma investigação rigorosa. Nos EUA, o sistema de accountability é forte, com o Congresso, a justiça, agências de saúde e a imprensa prontas para examinar, atribuir responsabilidades e, se necessário, tomar medidas corretivas. Lá, realmente a lei vale para “quase” todos (não existe perfeição no universo…). aqui, a lei vale para os amigos do rei. Principalmente se forem ricos.

 

 

Who’s Afraid of Robert F. Kennedy Jr.? Not Me.

Here in Brazil, where American politics often seem like a reality show from another world, the idea that Robert F. Kennedy Jr. could cause panic in the U.S. with his skepticism towards vaccines makes me laugh. Over there, freedom of speech is taken seriously, it’s a cherished right, where controversy is natural and healthy.

In the U.S., RFK Jr.’s ideas might be controversial, but he has the room to express them. It’s a country where the clash of ideas is part of the culture, where each citizen can put their opinion on the table, knowing no one will silence them by decree. It’s like a living organism, self-organized, where society adapts and heals, even when someone tries to inject the poison of misinformation.

Now, look at Brazil. Here, the word “censorship” isn’t just a distant memory; it’s a shadow that still looms over us. Where is our freedom of expression when artists are silenced, books are banned, and the internet is watched more closely than our national heritage? Criminals communicate freely, even from within prisons, where their power is bought at a heavy price. Total free expression of thought. Where’s the law? Here, if the government decides that an idea doesn’t align with its narrative, it can simply be erased, without room for debate, without the chance to be confronted in the marketplace of ideas. As our president publicly advised Maduro during his official visit, the important thing is to build favorable narratives. Damn the rest.

RFK Jr. in the U.S. might be seen as a threat for his viewpoints, but he is a threat that has the right to exist, to be debated, to be refuted. In Brazil, democracy often seems more like a play where the script is controlled by those in power, and if your lines don’t fit the script, you can be cut from the cast. Judicial activism is out of control, and the actions of the Supreme Federal Court tread on minefields, where all kinds of suspicions cross our minds. If mouths are gagged, minds remain free.

So, when I see the fuss about the potential appointment of RFK Jr. as Secretary of Health in the U.S., I don’t feel fear. I feel a sadness for the contrast between there and here. In the U.S., the courage to debate, to challenge the status quo, inspires me. Here, often, freedom of speech seems more like a state concession than an inalienable right of citizens. What’s the point of a constitution when casuistic interpretation prevails? Any speech or action might offend the official on duty. It’s tragic irony, but it also reminds us of the importance of continuing to fight for this freedom.

And when we talk about American laws on vaccines, the reality is that they encourage vaccination but do not mandate it for everyone. Those who want to can get vaccinated. There’s a robust system of recommendations, with some vaccines required for children enrolled in schools, but with exemptions allowed for medical, religious, or philosophical reasons in many states. Adults, in turn, have the freedom to choose whether to vaccinate or not, reflecting that same culture of personal freedom. Here, in a country short on money and culture, vaccines have undoubtedly changed the fate of millions of children. I studied medicine when there weren’t many vaccines. I know their importance in a country where people live without sanitation and in vulnerable conditions. Our vaccination program is fundamental. We cannot compare ourselves to the U.S. in this aspect, nor claim to be better. They have earned the right to freedom.

However, it’s worth emphasizing: if some decision by the American government, including figures like RFK Jr., resulted in an outbreak of measles or another disease with serious consequences, there would be a thorough investigation. In the U.S., the accountability system is strong, with Congress, the judiciary, health agencies, and the press ready to examine, assign responsibilities, and if necessary, take corrective measures. There, the law really applies to “almost” everyone (perfection doesn’t exist in the universe…). Here, the law applies to the king’s friends, especially if they are rich.

 

4 responses to “Quem tem medo de Robert F. Kennedy Jr.? Eu não / Who’s Afraid of Robert F. Kennedy Jr.? Not Me.”

  1. Estranho q o Sr nao menciona as centenas de livros retirados das Escolas Americanas pelos Governadores Republicanos hoje em dia…

    1. Tem razao. A diferença é que la, isso pode ser revertido pela vontade popular. Aqui não. Um indivíduo decide e pronto. A liberdade, lá, tem sim consequências, mas a liberdade persiste.

    2. Obrigado pelo questionamento.

  2. Avatar de Itamar Dias Fernandes
    Itamar Dias Fernandes

    Outro texto bem escrito, por ti, Valter! No entanto, concordo com ele, somente, em relação a liberdade de expressão. Discordo totalmente, sobre os critérios médicos, em nível de saúde pública, frente à vacinação de crianças, adolescentes, jovens, adultos e idosos. Muitas vezes, por motivos de dogmas de seitas religiosas. Outro fato: a justiça por lá, segundo os dados estatísticos sobre condenados a morte, 75%, são negros, mestiços, imigrantes! Abraço

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